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O Anãozinho de Jardim

Livros e Desvarios

O Anãozinho de Jardim

Livros e Desvarios

Seg | 07.03.16

O Tombo de Vivi ✯por Elena Markus

Helena R. Moisio
Arte de Pat Brennan


Vivianenunca se preocupara com a sua estranha inclinação para acidentes, mas Liliane,sua irmã gémea, irritava-se e chamava-lhe desastrada. Dizia-lhe sempre que elaprestasse mais atenção ao que fazia, se calhar, sofreria menos imprevistos.Vivi, era assim que lhe chamavam, não se importava. Sempre achara que eramestes imprevistos que transformavam a sua vida nalgo fascinante e merecedora deser vivida, mas, Lili, tinha uma perspetiva mais circunspecta e temperamentalnesta abordagem à vida.

Viviamava a irmã do fundo do seu coração, via-a como uma mulher de paixõesavassaladoras e tempestades impetuosas submetidas a um autocontrolo rigoroso.Uma caixinha de Pandora que Vivi não ousava abrir, mas com a qual contava paraa proteger e isso transmitia-lhe uma sensação de segurança que ela de bom gradoacolhia e que lhe permitia enfrentar com firmeza situações mais difíceis comoaquela que agora se lhes apresentava.

Alguémhavia telefonado para a florista, onde trabalhavam, a encomendar uma coroa deflores para entregar numa das mansões ali perto. Era um sítio meio escurinho emal-arranjado que lhe provocava arrepios sempre que por ali passava sozinha,mas desta vez a Lili estava com ela e por isso desaparecera o receio de cometeralgum engano. No entanto, mesmo tocando na campainha e batendo na porta dafrente, ninguém atendia. Liliane já havia começado a resmungar pela falta deconsideração, Viviane apenas achava que a casa era grande e simplesmente podiamnão ter ouvido. Também se arrependeu de manifestar verbalmente tal opiniãovisto o olhar fulminante da irmã ter indicado que tal afirmação, além dedescabida era, igualmente, insultuosa.

Apósuma breve troca de palavras sobre o destino da coroa de flores ambas concluíramque, independentemente, de uma querer se livrar da dita e outra querer que lhespagassem o que lhes era devido, o objetivo era comum. Tinham de entregar amalfadada coroa e estava claro que pela porta da frente não iria ser.

Vivifoi a primeira a aventurar-se pelo carreiro de pedra que conduzia às traseirasda mansão, logo seguida por uma irmã gémea visivelmente contrariada edesconfortável com toda a situação. Ainda não tinham começado a subir ospequenos degraus gastos que se encontravam do lado direito e as levaria à portatraseira quando o sussurro daquilo que lhes parecia um coro de vozes, vindo dofundo de um poço, lhes chamou a atenção. Imediatamente as duas pararam no meiodo caminho e os seus olhos procuraram a direção do som. Uns metros mais àfrente do sitio onde se encontravam havia uma clareira cinzenta, de ardecrépito e engalanada com folhas e galhos secos espalhados pelo chão, mas nãose vislumbrava nenhum poço. Vivi, que transportava a coroa de flores, encostou-aàs sebes que contornavam o caminho e deu um passo na direção do som, mas foiparada pela mão da irmã sobre o seu ombro.

-Oi! Tás doida? – perguntou Lili.

-Não. – respondeu vivi virando-se para a irmã – Tenho a certeza que há aligente, só ia dar uma espreitadela.

-Eu tenho a certeza que há gente ali também – retorquiu a gémea apontando nadireção da casa. – Podemos dar uma espreitadela ali primeiro.

-Já demos e ninguém abriu a porta.

-Mas ainda não experimentámos esta porta.

-E para que é que vamos bater àquela porta se as vozes vêm dali?

-Porque ali não há uma casa e aqui há? – revidou Lili.

-Não sejas tonta. E se estiver ali alguém a precisar de ajuda?

-Chamamos os bombeiros.

-Mas para isso alguém tem de lá ir ver, não? – rematou vivi retomando o caminhoda clareira.

Lilirebolou os olhos e suspirou. Normalmente, os desastres aconteciam quando a irmãsentia o desejo incontrolável de ajudar alguém que ela imaginava estar emapuros.

-Espera por mim. – Acabou por dizer seguindo-a.

Àmedida que Vivi se aproximava, o coro de vozes parecia soar mais perto. Nãoconseguia discernir a linguagem utilizada que mais se assemelhava a ecostrazidos pelo vento, mas vindos de onde? Parou, olhou em seu redor, mas nada.

 - Juro que não consigo perceber de onde vem osom. – disse ela intrigada esperando que a irmã se aproximasse.

-Deve ser o barulho dos galhos das árvores. – Retorquiu Lili. – Nada mais.

Paraseu descanso, o som desapareceu. Vivi descansou a palma das mãos nas ancas,permanecia intrigada, mas a irmã devia ter razão.

-Talvez. – Acabou por concordar hesitantemente virando-se para a irmã, que seaproximou dela agora com um ar mais descansado.

-Estás a ver. – Liliane sorriu estendendo-lhe a mão. – Eu disse-te que não havianada.

Maltinha tido tempo de terminar a frase quando o coro de vozes se elevou novamentee desta vez bastante mais próximo. Viviane soltou um guincho assustada e aomesmo tempo deu um passo atrás. O chão abriu-se debaixo dos seus pés e no calorda confusão que se seguiu apenas viu a sua gémea lançar-se para a frente eagarrar-lhe os pulsos com toda a força que conseguia reunir para não a deixarcair. Mas era tarde demais, o desequilíbrio provocado pelo tombo de Viviarrastou Lili involuntariamente para dentro do buraco.
 
 
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